É um pó branco,
discreto, fácil de fabricar e mortal. Em Bruxelas, na terça-feira (22),
assim como na casa de shows Bataclan em Paris ou na Síria, o TATP,
apelidado pelos extremistas de "a mãe de Satã", parece ser o explosivo
preferido do Estado Islâmico.
"Quinze quilos
de explosivo do tipo TATP, 150 litros de acetona, 30 litros de água
oxigenada, detonadores, uma mala cheia de pregos e parafusos" foram
encontrados em um apartamento dos homens-bomba de Bruxelas, segundo
revelou nesta quarta-feira (23) o procurador federal belga, Frédéric Van
Leeuw.
Descoberto no
final do século 19 por um químico alemão, o peróxido de acetona (TATP:
Triperóxido de triacetona) é um explosivo artesanal obtido na mistura,
em proporções precisas, de acetona, água oxigenada e um ácido
(sulfúrico, clorídrico ou nítrico), produtos facilmente encontrados no
comércio.
O resultado é
um pó constituído de cristais brancos, parecido com açúcar cristal, que
um simples detonador basta para fazê-lo explodir, em uma deflagração
terrível que produz gases quentes.
Nos últimos
anos, no Iraque e na Síria, os laboratórios, primeiro precários depois
quase industriais, de TATP e de outros explosivos artesanais se
multiplicaram.
Em um relatório
publicado em fevereiro, a ONG Conflict Armament Research apontou, após
uma investigação de 20 meses, uma rede de 51 empresas, com sede em 20
países, incluindo Turquia, Brasil, Rússia, Bélgica e Estados Unidos, que
forneceram ao EI os componentes necessários para a fabricação
semi-industrial de explosivos artesanais.
"Ao contrário
do que dizem, olhar um tutorial na internet não basta", assegura à AFP
Eric, um ex-oficial, especialista em explosivos, que pede para não ter
seu sobrenome identificado.
"É preciso que
alguém ensine e mostre pelo menos uma vez. Mas de instrutores, o Estado
Islâmico está cheio, na Síria e no Iraque. Pois isso se difunde na
prática. Quando alguém te mostra, você pode, efetivamente, produzir o
explosivo em sua cozinha", acrescenta.
'Forte explosão'
A parte mais
difícil é a adição de ácido à mistura de acetona e água oxigenada, o que
gera calor, fortes emanações e pode inflamar, mas um operador
cuidadoso, protegido por uma simples máscara, pode fazê-lo sem grandes
dificuldades.
É de TATP que
foram constituídos os cintos explosivos dos suicidas que atacaram em 13
de novembro Paris. A substância também foi encontrada nos coletes e
bombas que os extremistas explodiram na terça-feira no aeroporto e no
metrô de Bruxelas, matando pelo menos 31 pessoas e ferindo mais de 300,
muitas das quais sofreram queimaduras graves.
Para provocar a
explosão de TATP, um detonador é necessário. Ele pode ser fabricado com
a ajuda de um tubo de metal preenchido com pasta e ligado a dois fios
elétricos que, em contato, vão causar um arco elétrico e chamas. Mais
simplesmente, podem ser adquiridos comercialmente.
Foi o que fez
Salah Abdelslam, um dos 13 extremistas de 13 de novembro, detido no dia
18 de março, em Bruxelas: depois de deixar que sua carteira de motorista
fosse xerocada, ele comprou uma dúzia de detonadores pirotécnicos de um
fornecedor de material para fogos de artifício na região de Paris sem
despertar a menor suspeita.
"O principal
problema do TATP", segundo um membro dos serviços anti-terroristas
franceses, que pediu para ter sua identidade preservada, "é a
disponibilidade dos ingredientes. Podemos monitorar a venda de peróxido
de hidrogênio, que é o que fazemos, mas se os caras são espertos o
suficiente para comprar em 20 farmácias pequenas quantidades, isto
passará desapercebido. O mesmo vale para a acetona e o ácido".
"Durante um
curto treinamento, passamos a tarde fabricando explosivos artesanais,
principalmente TATP, e depois testamos. É de uma facilidade
desconcertante. Unicamente com produtos comprados" em lojas comuns. "Em
meia hora, é possível fabricar o explosivo, meia hora depois o
explodimos. E a explosão é forte", afirma.